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O amor é mais forte que a morte!

 

Testemunho

Nasci numa família de católicos praticantes onde me ensinaram desde a minha infância o que convém a "uma menina respeitável". Com 15 anos a moral não me metia medo nenhum e parecia-me perfeitamente justificada. O pudor, a abstenção de relações sexuais antes do casamento representavam uma autoproteção que abria caminho a uma estabilidade afetiva e uma família equilibrada: em suma a uma vida normal.

A onda de viver junto

Mais tarde, fora do casulo familiar, a realidade social tornava estes princípios impossíveis de serem vividos. Ao redor de mim, a maior parte dos jovens vivia junto. Tirando algumas exceções, as grandes questões das moças eram: Que fazer para não se ligar a ninguém? Como escapar à solidão e conhecer uma relação duradoura? Eu podia escolher entre duas hipóteses: aceitar ser posta à parte ou entrar na onda de viver junto. Então, incapaz de conciliar os meus sentimentos e os meus valores morais, deixei-me arrastar pelas circunstâncias. Tinha de viver na minha época.

Por isso, o meu namorado e eu começamos a viver maritalmente. Ele era apenas batizado e não percebia nada dos preconceitos da minha educação. Psicológica e afetivamente nem pensava em renunciar a ele e ao modo de vida que ele me propunha. Eu tornava-me uma moça como as outras, enquanto esperava: "Vivermos juntos é provisório: vai durar apenas o tempo do curso, a seguir vamos nos casar". Vivia um catolicismo "pela metade", continuando a ir à missa e a rezar para que a nossa situação evoluísse.

Que fazer desta criança?

A nossa relação deteriorou-se. Ele chegava a cometer infidelidades e depois dizia-me: "Eu não te engano, uma vez que não sou casado". Ou então "Não sou pior que os outros, sou como todos os rapazes". A minha fraqueza deu-me a capacidade de perdoar, de considerar normais estas situações: é jovem, acabará por amadurecer e compreender. Todos os rapazes são uns libertinos que acabam um dia se estabilizando. Tinha então a ingenuidade de rezar pela sua conversão.

Mas a minha insatisfação crescia, a decepção e a amargura roíam-me o coração. Depois aconteceu o imprevisto: o que o médico tinha diagnosticado como uma gastroenterite revelou-se ser uma gravidez. Foi o dia mais bonito da minha vida, dia que rapidamente se transformou num pesadelo. O meu estado foi a ocasião de descobrir o meu companheiro sob um novo aspecto. Alguns anos antes tinha-me assegurado que era contra o aborto, mas posto contra a parede, confessou-me a sua incapacidade de assumir uma paternidade e dizia-me para abortar.

O meu desgosto transformou-se em pânico e em ódio e o seu endurecimento de coração foi igual ao meu. Tinha uma semana para tomar uma decisão: devia romper este "noivado adiado" que tinha me arrastado para o lamaçal. Nessa altura, eu não encontrava nenhuma razão para ficar com o meu filho de quem tanto gostava e com quem sonhava há tantos anos. Ele seria destinado ao sofrimento de ter um pai ausente, ao desprezo da minha família, às privações materiais. Além disto eu já detestava o seu pai e egoistamente não via maneira de refazer a minha vida com um filho ilegítimo. Quanto aos meus sentimentos eles tinham sido o motor da minha desgraça e portanto eu não tinha nada que os levar em consideração. Com a morte na alma decidi pois "salvar-me" a qualquer preço.

Esta armadilha parecia-me humanamente insolúvel; restava-me apenas a bestialidade, tornada segura por ser feita por médico e paga pela previdência social... E as minhas orações não tinham tido nenhum fruto.

Deus não me condena

Depois da intervenção, eu fiquei como morta interiormente durante mais de um ano. Mas era perseguida por várias interrogações: Que tinha eu feito para chegar a este ponto? Quando é que tinha começado a escorregar para tão baixo? Onde estava esse Deus a quem eu tinha continuado a rezar? Quem me salvou na adversidade? Por que tantas mentiras sobre a Providência e tantas promessas no ensinamento religioso? Onde estava o filho que eu continuava a amar e cuja ausência me torturava?

O medo fazia eco com a minha revolta: agora que eu própria me tinha condenado por um crime maior que o adultério, que castigo Deus ainda ia mandar para mim? Era prisioneira de um círculo infernal. Mesmo a confissão não me libertava do sentimento de ser perseguida pelo fatalismo. Então para quê viver?

Um dia, ao olhar um crucifixo, eu percebi como num relâmpago, que Deus tinha conhecido uma morte inocente e abominável por causa dos pecados do mundo e mais concretamente dos meus e não me podia condenar. Esta descoberta perturbou-me muito. Travei conhecimento nessa altura com alguns jovens que me fizeram conhecer um grupo de oração. Aí, apesar das minhas tentações mórbidas, o Senhor deu-me uma alegria incomparável. Sem que eu percebesse, Ele me reconstruía.

Uns amigos aconselharam-me a fazer uma peregrinação a Paray-le-Monial. Aceitei com a louca esperança de aí encontrar Deus. Durante um grupo de partilha, enquanto algumas pessoas rezavam, eu tive um encontro pessoal com Jesus-Misericórdia ardendo de amor. Tive então consciência, com espanto, que Ele é uma pessoa e que Ele me amava. Que nunca tinha deixado de me amar, mesmo nos momentos de maior desolação que me tinham afastado d'Ele, que era Ele o amor que eu procurava há tantos anos... O tamanho dos meus pecados e a Sua infinita Misericórdia perturbavam-me.

É ele o pastor

Este encontro foi decisivo, pois a minha vida oscilou com uma nova trajetória. O fatalismo deu lugar à Providência. Vejo agora com mais clareza que os meus desejos de fundar um lar eram legítimos apesar das pressões sociais lhe serem contrárias. Mas eu deveria ter feito passar a minha opção por Deus, pela vida de acordo com o meu batismo, antes da escolha de um marido: sendo o objetivo da minha existência servir a Deus e não preferir introduzi-Lo à força nos meus projetos pessoais. É Ele o Pastor e eu a ovelha, não o contrário.

Mas o mais difícil é fazer no dia a dia: perdoar àqueles que nos ofenderam; perdoar-nos a nós mesmos os erros cometidos; deixar-se perdoar e amar por Deus, tal como somos, no ponto em que nos encontramos.

Sophie