Jesus é histórico?
Jesus Cristo é Deus?

 

 

  Quer se tenha respondido não, quer se tenha respondido sim, quer não se tenha resposta, estas questões continuam presentes.

    De certa forma, não há ninguém que, de uma maneira explícita ou implícita, não tenha levantado estas questões em algum momento da sua vida.

    Neste livrinho propomos uma primeira aproximação, a partir dos melhores dados de que dispomos actualmente, aqueles que podemos considerar indiscutíveis. A partir deles, cada um verá a forma como fará avançar a sua procura, a sua reflexão. Alguns gostarão de ir mais longe em tal procura; ficaremos felizes se os tivermos ajudado a progredir nesse caminho.

    Duas questões queremos propor para introduzir este assunto:


1. Que quer dizer "histórico"?

No sentido mais simples da palavra, dizer que alguém é realmente histórico quer dizer:

1. que essa pessoa existiu realmente;
2. que se sabe sobre ela de uma maneira segura um certo número de coisas;
3. eventualmente, que lhe podem ser atribuídos certos escritos ou palavras.

No que diz respeito às palavras, elas podem ser históricas e "autênticas" quer nas palavras em si, quer na sua significação.
    É preciso distinguir a realidade histórica do jornalismo. Por exemplo, quando se fala da derrota de Átila, chefe dos Hunos, nos Campos Cataláunicos (no Leste da França), em 451. Conhecemos o facto, a data, o nome do general que o venceu, Écio, os seus aliados contra Átila. Quanto aio resto, só temos de tal acontecimento aquilo que contaram, à sua maneira, que não é a nossa, um ou outro autor galo-romano do século V. E, no entanto, diremos com toda a razão que Átila, Écio, a batalha dos Campos Cataláunicos, tudo isso são personagens e factos históricos: se formos sérios, não podemos duvidar da sua realidade.

    Ora, muitas pessoas hoje não sabem que Jesus é uma personagem que tem uma realidade histórica e que as suas palavras podem ser conhecidas na sua verdade essencial. Propomos aqui, a todos os que quiserem com sinceridade informar-se sobre este assunto, que o examinem connosco. O nosso método consistirá em apresentar o essencial dos conhecimentos actuais em arqueologia, em geografia histórica, em história das instituições, em história da Antiguidade recente, no estudo dos manuscritos e da língua grega da koiné, o grego simplificado que era a língua corrente na bacia mediterrânica na época de Jesus. Quer dizer, para sermos precisos, mais ou menos entre o ano 6 a.C. e o ano 30 d.C. no que respeita à vida de Jesus e provavelmente até ao fim do primeiro século (ano 100), no máximo, para a redacção dos Evangelhos e dos outros livros do "Novo Testamento".

    O método consistirá por outro lado em examinar e discutir as principais objecções ou críticas conhecidas. O que elas procuram realmente não é negar que Jesus tenha existido, o que seria impossível, mas tentar contestar em parte a autenticidade do seu rosto e da sua mensagem.

    Estas críticas merecem ser examinadas porque correspondem muitas vezes a questões que nós podemos ter e que formulamos de uma forma mais ou menos explícita.

    Porque também os crentes levantam essas questões. Isso é normal. Não é por confiar na pessoa e na mensagem profunda de Jesus que o crente deixaria de levantar questões sobre a historicidade de Jesus. pelo contrário, ele levanta as mesmo questões que qualquer outro homem, e talvez com maior acuidade porque quanto mais O ama mais quer conhecer o Seu verdadeiro rosto.

2. Quem procura saber se Jesus é histórico?

    Como acabamos de dizer, os crentes, naturalmente, procuram saber mais acerca de Jesus. Mas os descrentes também. Nas grandes bibliotecas europeias, o assunto que compreende mais títulos de livros é Deus. O segundo é Jesus. E isto é provavelmente verdadeiro no resto do mundo.

    Como se explica? Há cerca de um bilião e duzentos milhões de cristãos susceptíveis de se interessarem por este assunto. Mas também, entre os quatro biliões de pessoas que não são cristãs, há ainda um certo número que gostariam de saber.

    O mais curioso, talvez, é o número de ateus que investigam e que escrevem sobre o tema. Há mesmo um certo número que manifesta uma espantosa energia em criticar e em contestar. Entre estes, há alguns que denunciam uma certa falta de paz interior. Não será que a sua hostilidade venha do facto de terem uma má imagem de Deus? Porque qualquer homem, no segredo do seu coração, só pode aceitar, só pode desejar um Deus bom. E, enquanto não encontrar esse Deus bom, há talvez qualquer parte de si mesmo que ainda não encontrou a alegria.

    Por isso, neste livrinho, não temos apenas como objectivo dar elementos de resposta sobre Jesus histórico a crentes mas também, e principalmente, propor esses elementos como tema de reflexão a qualquer homem que procure saber e pronunciar-se de forma correcta e justa:

1º acerca da realidade histórica de Jesus;
2º acerca do que, em Jesus Cristo, pode levar a pensar que Ele seja Deus; e, se sim, que tipo de Deus?
São perguntas que ficam em aberto...

 

 

PRIMEIRA PARTE
JESUS É HISTÓRICO?

 

I. Jesus e os Evangelhos

1. Que são os Evangelhos?

    Não podemos estudar a questão de Jesus, sem recorrermos aos Evangelhos. São as principais fontes escritas que falam d'Ele. Antes de prosseguirmos: a que é que chamamos Evangelho?

    Os Evangelhos são quatro livrinhos escritos pelos discípulos de Jesus para fazerem conhecer a sua vida e as suas palavras.

    "Evangelho" vem de uma expressão grega que quer dizer "boa nova".

    Aos quatro Evangelhos (de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João), temos que acrescentar os Actos dos Apóstolos. Há ainda vinte e três outros livrinhos que são as "epístolas", isto é, cartas destinadas ao ensino da doutrina cristã e também uma narrativa simbólica acerca do fim dos tempos, o Apocalipse. Este conjunto chama-se o Novo Testamento.

    Em relação com este Novo Testamento, os fiéis a Cristo lêem o Antigo Testamento, um conjunto de livros mais antigos, todos anteriores a Cristo e que O anunciam. Este Antigo Testamento é, em termos gerais, o livro sagrado dos Judeus ou Israelitas. Na verdade, para os cristãos, Jesus é o Messias anunciado pelos profetas, esperado por Israel.

    Em conjunto, o Antigo e o Novo Testamento constituem a Bíblia ou a Sagrada Escritura.

2. Jesus é histórico? Quem pode responder a esta pergunta?

     Certos adversários dos cristãos consideram que só os não-cristãos podem estudar seriamente a história de Jesus 1. Tal posição deve ser considerada como sectária: não será um fanatismo a priori negar a capacidade de um cristão ser histórico ou simplesmente inteligente e honesto? Faz lembrar Voltaire, esse brilhante escritor do século XVIII que, por um lado, se proclamava o campeão da tolerância e, por outro, declarava: "Esmaguemos o infame!", considerando "infame" todo o cristão convicto.

    A história é uma procura da verdade em que as paixões de uns e de outros devem prestar justiça aos factos. Os métodos que os cristãos têm para investigar a historicidade de Jesus são os métodos da história. Porque não teriam eles o direito de empregarem esses métodos? Os cristãos têm ao menos uma vantagem: compreendem melhor a personalidade de Cristo do que aqueles que, aberta ou secretamente, O detestam. É bem conhecido que é um elemento favorável em história interessar-se pelo objecto da sua investigação e ser capaz de o compreender...

    Os adversários de Cristo, em história, também têm a sua utilidade porque levantam muitas vezes as verdadeiras questões, as que estimulam a pesquisa. Mas não é certo à partida que sejam eles quem dá as melhores respostas.

3. Podemos opor o Jesus do Evangelho ao Jesus da Igreja?

     Uma questão que periodicamente vem à baila é que o verdadeiro Jesus, o do Evangelho, não seria aquele que a Igreja nos apresenta hoje.

     É a objecção clássica de certos sábios que têm problemas com a fé ou de jornalistas que gostariam de apresentar ao público um Jesus mais cómodo ou, de certa forma, um Jesus que lhes conviesse a eles, liberto de tudo o que lhes parece exigente para viver, difícil para acreditar. Propõem escolher entre um Jesus que dizem "arranjado pela Igreja" e um "verdadeiro Jesus", o deles, que quereriam bem aceitar e que, por isso, crêem ser mais aceitável pelos outros. É esse que eles declaram histórico e que dizem ter encontrado nos Evangelhos. Mas subtraem ao Evangelho as passagens que estragam a sua teoria e acusam a Igreja de as ter acrescentado. É um pouco como naquele filme em que se vê Charlot a fazer a mala: quando a fecha, há um bocado de camisa e uma ponta da gravata que ficam de fora; então, ele agarra na tesoura e corta tudo o que ficou à vista.

    Portanto, para estes críticos, universitários ou jornalistas, Jesus teria sido uma personagem política, um agitador social, um filósofo, um profeta de uma religião diferente... tudo menos aquele que a Igreja nos apresenta.

    O argumento que lhes é comum e necessário para deixar a sua imaginação à vontade é dissociar Jesus da Igreja. "Jesus não quis a Igreja", "o seu projecto socio-político falhou" mas os discípulos, depois da sua morte, transformaram o caso em doutrina religiosa, que foi continuada por uma associação, a Igreja...

Vejamos desde já o que se sabe sobre este assunto.

Resumamos os factos:

  1. Jesus escolhe doze discípulos privilegiados, os "apóstolos!. Escolhe também, num nível diferente, mais setenta e dois. Envia-os dois a dois pregar o Evangelho à Sua frente, preparar as grandes reuniões numa espécie de porta a porta. É o que se chama formar quadros para perpetuar uma mensagem. É querer fundar uma Igreja.

  2. Jesus diz expressamente a Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mateus, cap. 16, vers. 18)
    Esta passagem perturba tanto os críticos de que falámos acima que propõem suprimi-la do Evangelho, dizer que ela foi acrescentada (método Charlot).

  3. Há ainda mais. Jesus, na sequência das palavras anteriores, diz a Pedro: "Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares na terra será ligado nos Céus, o que desligares na terra será desligado nos Céus" (Mateus, cap. 16, vers. 18 e 19).
    Isto quer dizer que Pedro terá autoridade para dizer em que é que se deve acreditar e em que é que se deve não acreditar para conhecer Deus e para ir ter com Ele ao céu para viver no Seu amor.
    Desta forma, é evidente que, se há um Papa, uma Igreja, para definir as coisas essenciais da fé, essa é realmente uma missão dada por Jesus no Evangelho.

  4. Enfin, en lien avec les choses précédentes, on peut lire dans l’Evangile de Saint Jean, dans les dernières recommandations que Jésus fait avant sa mort à ses Apôtres, à son Eglise en formation :

OS DOZE APÓSTOLOS

"Depois, Jesus subiu a um monte e chemou para junto de si aqueles que entendeu. Aprioximara-se e Ele então escolheu doze, para o acompanharem e para os enviar a pregar a Boa Nova, com poder de expulsarem espíritos maus. A esses chamou apóstolos. São eles; Simão (a quem Jesus deu o nome de Pedro), Tiago e João, filhos de Zebedeu (a esses dois deu o nome de "Boanerges", isto é "Filhos do Trovão"), André, Filipe. Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão (do partido dos Nacionalistas) e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Exangelho segundo S. Marcos,
cap. 3, vers. 13 a 19.

- Encontra-se a mesma lista no Evangelho de S. Mateus, no capítulo10, versículos 1 a 4.

- Encontra-se ainda esta lista dos doze apóstolos no Evangelho de S. Lucas, no capítulo 6, versículos 12 a 16. Mas há aqui uma diferença: no lugar de Tadeu encontra-se "Judas, filho de Tiago". Porquê? Erro dos copistas, incertezas na transmissão, nomes diferentes? Óscar Cullmann, exegeta protestante, fez sobre isso um estudo muito interessante.
De facto, esta pequena diferença é muito importante, como veremos mais à frente. Se tivesse sido a Igreja a inventar tudo o que está nos Evangelhos, particularmente no que toca aos apóstolos, teria dado exactamente a mesma lista em todos os Evangelhos; pelo contrário, conservou piedosamente todas as diferenças.

II. Os Evangelhos confrontados com a História.

São os Evangelhos uma invenção da Igreja?

    Se pudemos provar que o Jesus dos Evangelhos é o mesmo que o Jesus da Igreja, temos agora que provar que os Evangelhos correspondem a uma verdade histórica e que esses textos não foram inventados

    A esta questão legítima, vamos responder primeiro pela confirmação da historicidade de Jesus e dos primeiros discípulos a partir dos escritores da época:

1. O testemunho dos antigos escritores romanos

    - Em primeiro lugar, referir-nos-emos a Plínio o Jovem (em 112), a Tácito (cerca de 116) e a Suetónio (cerca de 120). Ver o quadro anexo.Nenhum deles traz dados concretos sobre a história do próprio Jesus. Mas permitem situar a época em que Ele, e sobretudo os cristãos, comaçam a ser tido em conta na história e na cultura romanas. Permitem também estabelecer uma relação entre os "Actos dos Apóstolos", históriados primeiros cristão escrita por S. Lucas, e a história geral.

Historicamente, Jesus é situado de uma forma bastante precisa pelos historiadores e escritores exteriores à Igreja, aolongo dos primeiros séculos da nossa era, quer sejam historiadores romanos ou judeus, quer sejam outros escritores da época:

1. No ano de 112, Plínio o Jovem escreve numa carta ap imperador romana Trajano, falando dos cristãos:

"Todas as suas faltas ou todos os seus erros, confessaram eles, resumeir-se-iam a reunir-se habitualmente numa data fixa e a cantar entre eles um hino a Cristo como se fosse um Deus".

2.Pelo ano 116, o famoso historiador romano Tácito conta nos seus Anais que Nero, imperador romano, acusado de ter ele mesmo incendiado Roma em 64, acusou os cristãos: "Nero considerou culpados e infligiu tormentos àqueles que eram detestados pelas suas abominações e a quem a multidão chamava cristãos. Este nome vem de Cristo, que foi entregue ao suplício no pontificado de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos 2".

3. Suetónio, outro escritor romano, por volta do ano 120, na Vida dos Doze Césares, faz de um certo "Chrestus" o instigador das perturbações entre os judeus que habitavam em Roma em 48, no tempo do imperador Cláudio, que os teria expulsado.

Ora justamente, o livro dos Actos dos Apóstolos - livro que completa o Evangelho de S. Lucas no Novo Testamente - faz uma alusão directa a esta expulsão, por altura da chegada de S, Paulo a Corinto (Actos, 18, 2 : Áquila e Príscila)

    - O testemunho de Flávio Josefo é o mais espantoso. De tal forma espantoso que se chegou a pensar que o texto tinha sido "arranjado" mais tarde pelos copistas cristãos na transmissão do manuscrito.

    O caso merecia ser discutido com grande seriedade e foi-o. Flávio Josefo 3 tinha participado na "Guerra dos Judeus", entre o ano 66 e o ano 70. Trata-se da maior revoilta dos Judeus, reprimida por Vespasiano e depois, quando ele foi proclamado imperador, pelo seu filho Tito. Flávio Josefo começou por lutar do lado dos revoltosos; depois, rendeu-se aos romanos e tomou o seu partido. Escreveu em grego, por volta de 93, uma história muito precisa destes acontecimentos. Nessa história, conta a condenação à morte do apºóstolo Tiago. E, depois, fala de Cristo. Um certo número de críticos consideraram então que esta passagem de Flávio era demasiado favorável a Jesus. Mas será que um Judeu romanizado iria tão longe? De acordo com eses críticos, quAlquer copista cristão, ao copiar o manuscrito, teria alterado o texto.

    Esta objecção é séria, mas temos vários manuscritos da mesma obra, com origens diferentes. Um sábio israelita, Shlomo Peres, estudou esses diferentes manuscritos e considera ter atingido a "versão mínima" de Flávio Josefo. Ei-la:

    "Nesse tempo vivia um sábio chamado Jesus. Comportava-se de uma maneira correcta e era estimado pela sua virtude. Muito foram os que, tanto Judeus como pessoas de outras nações, se tornaram seus discípulos. Pilatos condenou-o a ser crucificado e a morrer. Mas aqueles que se tinham tornado seus discípulos não deixaram de seguir a sua doutrina: contaram que ele lhes tinha aparecido três dias deopiois da sua crucifixão e que estava vivo. Provavelmente ele era o Messias sobre quem os profetas contaram tantas maravilhas".

    Todos juntos, estes testemunhos escritos por pessoas próximas dos acontecimentos são suficientes para atestar a existência histórica de Jesus, a sua influência e a sua notoriedade. É certo que são pouco explícitos no que toda a pormenores. Mas que sabemos nós a mais acerca de tantas personagens importantes dessa época, das quais a história reteve os nomes? Praticamente nada, na maior parte das vezes.

2. A realidade histórica dos Evangelhos confirmada pela arqueologia

    Os Evangelhos dizem-nos imensas coisas sobre Jesus. Mesmo se o seu objectivo, propriamente dito, não é contar a história dia a dia nem fazer a descrição jornalística como gostaríamos hoje de fazer. Contudo, eles são muito mais precisos do que se pensou durante muito tempo. Acontece que estão cheios de pormenores acerca das cidades e aldeias do tempo, das maneiras de viver, de falar, acerca das personagens oficiais. A história e a arqueologia confirmam que todos estes elementos são exactos, verídicos. Aliás, certos pormenores não podiam ter sido inventadis ou escritosmais tarde porque certas instituições, certas práticas tinham mudado pouco tempo depois da morte de Jesus, particularmente no ano 70., ano da destruição de jerusalém. 1900 anos depois dos acontecimentos, descobre-se que os Evangelhos é que tinham razão ao contrário do que, durante muito tempo, os historiadores julgaram que estava errado, precisamente em algumas das suas passagens: por exemplo, no Evangelho segundo S. João, considerado o mais espiritual e, portanto, o manos concreto, menos preciso, mais afastadio dos tempos e dos locais, encontramos o nome de mais vinte localidades concretas do que nos outros três evangelistas.Um cetrto número destas localidades desapareceram completamente e puderam ser identificadas. Só recentemente os historiadores puderam provar a sua existência.

    Também em dada altura se perguntou se a localidade de Nazaré não tinha sido inventada pelos Evangelhos. Porquê? Porque o Antigo Testamento e os antigos comentérios hebraicos não falam dela. Críticos e jornalistas fizeram disto um romance completa 4. Mas, na realidade, já em 1962, uma equipa de arqueólogos israelitas, dirigida pelo prof. Avi Jonah tinha encontrado nas ruinas de Cesareia Marítima uma placa gravada em hebreu, datando co século III antes de Cristo e com o nome da aldeia de Nazaré. Fodas as teorias montadas para provar que os evangelistas teriam inventado a localidade de Nazaré, porque esta palavra tinha um alcance simbólico, cairam à água.

    Outro exemplo. Encontrou-se em Jerusalém, a "piscina dos cinco pórticos", a piscina de Bethesda 5, perto da porta das Ovelhas, que os críticos pensaram ser uma realidade mítica.

    Em 1927, o arqueólogo francês Vincent encontrou o lithostrotos ou Gabbatha. esse espaço lageado do pretório em que Jesus esteve quando compareceu diante de Pilatosa (Evangelho segundo S. João, capítulo 19, versículo 13). Quanto ao próprio Pilatos, o prefeito romano que condenou Jesus à morte e do qual não se encontrava rasto concreto ao longo de dezoito séculos 6, arqueólogos italianos encontraram em 1961, também nas ruinas de Cesareia Marítima, o seu nome gravado numa pedra com o seu título exacto: praefectus.

   Esta verificação a partir dos dados arqueológicos, geográficos e políticos podia ser muito mais desenvolvida. Não temos grande espaço para o fazer aqui. mas cada um poderá compreender até que ponto, com os dados que expusemos acima, este trabalho é sólido. A descrição dos locais, dos monumentos, dos responsáveis políticos e religiosos é muito importante: na verdade, depois do ano 70 e do esmagamento da revolta dos judeus por Tito, muitas destas coisas desapareceram ou foram definitivamente modificadas. Aqueles que foram capazes de as descrever tais como foram antes são boas testemunhas: contam-nos a vida da Palestina como eles próprios a viveram antes do ano 70.

III. A transmissão dos Evangelhos.

Que garantia de autenticidade?

    Podemos perguntar agora como é que estas narrativas anteriores ao ano 70 se puderam conservar sem deformação. Com efeito, a imprensa só existe desde 1450. Como é que os Evangelhos se transmitiram do século I ao século XV?

    Numerosos sábios estudaram este probroblema.

    Nasceu mesmo uma ciència autónoma, a "textografia". Os Evangelhos foram escritos à mão, com tinta, em "papiros" e em "pergaminhos". O papiro é o antepassado do papel. Trata-se de folhas de cana, coladas umas às outras para formarem páginas. Era barato mas frágil. Os pergaminhos eram peles, em geral de carneiro, preparadas para nelas se escrever e que se ligavam umas às outras em cadernos, como se fossem livros. A estes dá-se o nome de "códices".

    Existem hoje cerca de cinco mil manuscritos do Novo Testamento. Para algumas obras da Antiguidade não dispomos porvezes senão de uma única cópia manuscrita! O mais antigo manuscrito que conhecemos para os Evangelhos é um bocado de papiro de 9 por 10 centímetros que dá os versículos 31-33 e 37-38 do capítulo 18 do Evangelho segundo S. João 7. Conseguiu-se datá-lo de cerca do ano 125 (no início do século II, quarenta a cinquenta anos apenas depois da redacção do texto).

    Há também um fragmento de papiro encontrado em Qumran, perto do Mar Morto, cujas poucas letras parecem poder ser atribuídas ao Evangelho segundo S. Marcos. Esse fragmento seria anterior a 70. Do fim do século II e do III, temos muitos fragmentos, alguns deles muito importantes. A partir do século IV (anos 300 a 400), já temos códices contendo o conjunto dos Evangelhos e todos os outros livros do Novo Testamento (Actos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse).

    Há portanto um período de quarenta anos no que respeita aos primeiros fragmentos e de duzentos e trinta anos para o texto completo, entre o memento em que foram escritos e a mais antiga cópia que chegou até nós.

    Para escritores gregos, como Sófocles, Aristófanes, Eurípedes, há catorze a dezasseis séculos entre a morte do autor e o primeiro manuscrito de que dispomos! E nove séculos para Júlio César!

    Os métodos de cópia são também muito interessantes porque, ainda que haja falhas, erros ou variantes de vez em quando, no conjunto o texto é muito seguro.

    De facto, não há apenas as genealogias das cópias, em que cada uma tem um antepassado diferente. Por vezes, estas linhagens cobrem-se umas ás outras: aquele que ditava aos copistas tinha nas mãos por vezes dois ou vários manuscritos e, dessa forma, as relações verticais entre as cópias cruzaram-se numerosas vezes.

    Esta transmissão em "redes interconectadas" é absolutamente única na história dos manuscritos e transmite uma grande certeza de fidelidade. As pequenas variantes ou omissões têm pouco efeito no conjunto das transmissões.

A rede múltipla pela qual os Evangelhos foram transmitidos através de diferentes línguas (grego, árabe, copta, latim) e as múltiplas gerações cruzadas dessas cópias pode ser comparada à estrutura do cérebro em que inumeráveis linhas nervosas são paralelas e podem estrelaçar-se de múltiplas maneiras.

Resumo

1º. O Jesus de que falam os Evangelhos quis realmente fundar a Igreja.

O Jesus do Evangelho é o Jesus daIgreja.

2º Quando se comparam os Evangelhos com s história, eles adquirem uma grande força: os historiadores antigops confirmam a existência, a vida de Jesus; as provas históricas e arqueológicas confirmam a verdade dos lugares, do modo de vida, da vida religiosa e política da época.

Os Evangelhos, além disso, não podem ter sido escritos posterormente, porque toda a paisagem histórica foi alterada no ano 70, com a destruição de Jerusalém e as transformações políticas.

3º A trnsmissão dos Evangelhos através de um sistema de cópias em rede múltipla é excepcional e, de longe, o mais fiável de toda a Antiguidade.

Vejamos agora quais são as novas questões que se podem levantar, a partir do momento em que demonstrámos que os Evangelhos são autênticos e nos foram fielmente transmitidos:

1ª. Que podemos saber exactamente acerca de Jesus, da Sua vida e do Seu ensino?

2ª Há vários livros, vários autores: dizem todos eles a mesma coisa no que respeita o essencial? a figura de Jesus é coerente confrontando as diferentes testemunhas?

IV. Que sabemos ao certo acerca de Jesus?

De Jesus, sabe-se ao mesmo tempo pouco e muito.

    Pouco, se quisermos fazer jornalismo. Os apóstolos e os evangelistas recolheram as acções de Jesus, na medida em que tinham algum significado para eles. Em contrapartida, não procuraram dizer-nos cuidadosamente, dia a dia, onde é que Ele estava, o que é que Ele fazia. É por isso que querer reconstituir a vida de jesus segundo uma fórmula jornalística actual, como tentou fazer com talento Jacques Duquesne, é romance histórico, com muitas cores mas pouca verdade. O romance, mesmo "histórico" não é história.

    Contudo, sabemos muito mais coisas acerca de Jesus do que acerca de muitos homens célebres da sua época e de toda a Antiguidade.

    O seu nascimento situa-se num espaço de seis anos: entre -6 e -1. Contamos hoje os anos teoricamente a partir do nascimento de jesus. Mas Dinis o Pequeno, monje que fez em 525 a concordância entre o calendário romano e a era de Cristo, enganou-se provavelmente em seis anos.

    O nascimento em Belém é certo, tal como a vida em Nazaré até à vida pública. Herodes o Grande, que reinava por altura do nascimento de Jesus, o outro Herodes que mandou matar João Baptista, o processo e a crucifixão de jesus sob Pôncio Pilatos, as pregaçõe de Jesus à beira do lago de Tiberíades, nas colinas da Galileia ou na Samaria, tudo isso é certo e seguro. A crucifixão teve lugar provavelmente no dia 7 de Abril do ano 30 8.

    Mas mais interessante é a pregação de Jesus, os seus actos e a sua significação: não sabemos em que dia Ele disse tal frase, mas temos a certeza de que a disse. Sobre estes opontos, os Evangelhos eo Novo Testamento são extraordinariamente fiáveis.Vamos ver como e porquê.

V. As provas da autenticidade do ensino de Jesus

    Se uma pessoa escreve um livro. é preciso provar que foi mesmo ela quem escreveu o texto que é impresso: temos o texto mas não é sempre fácil provar que o autor oficial é o autor real. Quando essa questão se põe, recorremos à coerência entre o que está escrito naquele livro, o que o mesmo autor pode ter escrito noutros livros e o que os seus amigos ou outras pessoas que foram testemunhas da sua vida dizem dele.

    No que diz respeito a Jesus, Ele não escreveu nenhum livro. Mas temos vinte e sete testemunhos escritos: os vinte e sete livros do Novo Testamento.

    Em primeiro lugar, os quatro Evangelhos: são eles que directamente contam a vida e os ensinamentos de jesus. Mas também os outros escritos explicitam, comentam a doutrina de jesus e permitem verificar a sua coerência.

    Essa coerência é excepcional e desafia os séculos. O que Jesus quis que nós soubéssemos acerca da Sua vida e dos Seus ensinamentos, podemos conhecê-lo perfeitamente. E isso é um facto histórico incontornável: Jesus viveu, testemunhou, curou doentes, ensinou, deu a sua vida: temos acesso com toda a segurança a esses factos e a esse ensinamento!

Como?

    Alguns adversários do cristianismo põe em grande relevo todas as divergências que encontram nos Evangelhos: por exemplo, a data da morte , catorze ou quinze de Nisan (a diferença é grande!), o nome ou os cognomes dos apóstolos, o número de viagens de jesus a Jerusalém. Até mesmo a sequência palavra a palavra com que nos foram transmitidos os ensinamentos.

Que responder?

    1. Todos os verdadeiros historiadores e todos os juíxes e advogados experientes nos dirão que as divergências nos pormenores não são um obstáculo mas uma confirmação da veracidade dos ensinamentos: ficamos certos de estar em presença de um conjunto de testemunhas verdadeiras e noa de uma única testemunha que teria ensinado a lição aos outos.

    2. . O que é mais extraordinário é que, para além das divergências, é a mesma doutrina de fundo que é expressa. E isso é impossível de inventar.
      Pessoas simples, sem muita instrução. dispersas pelo mundo romano da época que era já oriental (língua grega) e ocidental (língua latina), vivendo sob perseguições, como poderiam elas produzir narrativas diferentes da mesma doutrina se essa doutrina não existisse já nsa base? E como teriam podido, de um momento para o outro, referir nomes de aldeias, pormenores de edifícios (a piscina de Bethesda, por exemplo) e descrever as maneuiras de viver, os papéis sociais e políticos que tinham desaparecido na tormenta dos anos 66-70? Alguns elementos, como vivos, tiveram de esperar 1900 anos para que a arqueologia os comprovasse, como foi o caso da inscrição do prefeito Pilatos, o nome de Nazaré gravado no séc. III a.C., as lages de Gabbatha...

    3. Um dos elementos que tem um grande peso para a autenticidade é o facto de que, nos Evangelhos, as testemunhas não escondem os erros nem as fraquezas dos apóstolos: por exemplo, quando Pedro renega Jesus, aquele Pedro a qum Jesus tinha anunciado que seria a pedra angular da Sua Igreja; outro exemplo é o da severidade de jesus para com Pedro, quando lhe diz: "Afasta-te de mim, Satanás", por Pedro lhe ter suplicado que não aceitasse a paixão nem a condenação à morte.
      Os Evangelhos não escondem também o que vai ser difícil para a pregação: anunciar um "Messias" - um Cristo - morto na cruz era, segundo as palavras de S. Paulo, "um escândalo para os Judeus e uma loucura para os Romanos" e para os outros não-crentes da época.
      Há portanto uma evidência contra a qual esbarram todos os ataques: a preocupação pela verdade nos Evangelhos ultrapassou qualquer outra consideração.

      Esta preocupação pela verdade atravessa todos os textos (e há vinte e sete!) do Novo Testamento. É esta preocupação pela verdade e esta coerência das testemunhas, dispersas geograficamente, que dão a certeza da historicidade da vida e do ensino de Jesus.

Conclusão sobre a historicidade de Jesus

     É certo que Jesus viveu verdadeiramente há 2000 anos e os EvAngelhos permitem uma aproximação muito grande em relação á Sua história.A Igreja tem razão em acreditar que conhece os Seus ensinamentios a partir dos Evangelhos. A todas as provas, hipºóteses e verosimilhanças reunidas junta-se, em último lugar, a íntima convicção, tal como acontece num processo que vai a tribunal.

    No que diz respeito à historicidade da vida, da morte, dos ensinamentos de Jesus, as provas não podem obrigar ninguém. Elas existem, mas quem quiser escapar a elas, escapa. Como se, afinal de contas, Jesus nos quisesse deixar a decisão de Lha conceder um lugar na história, na nossa história. Recordemos quando Ele devolveu a pergunta aos apóstolos: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Não vale a pena pedir provas à história. Ela já as deu de forma suficiente. É a cada um de nós que cabe pronunciar-se em liberdade e em verdade.

    É então que aparece a segunda questão: Jesus Cristo é Deus? É Ele mesmo que afirma ser Deus? Filosoficamente, isso é possível? Se sim, qual seria então o rosto de Deus?

 

SEGUNDA PARTE:
JESUS CRISTO É DEUS?

 

     O desafio incrível da historicidade de Jesus é que este homem tem o nome ligado à eventualidade de ser Deus. É uma das razões pelas quais tantros homens inteligentes têm dificuldades em reconhecer a historicidade de Jesus: têmmedo de dizer "sim" e de se sentirem obrigados a reconhecer a Sua divindade. Jesus, entre todas as pessoas da história, é a que congrega mais reacções. A Sua pergunta: "E vós, quem dizeis que eu sou?" ultrapassa a história e a existência. Não é só Jesus que está em questão, somos nós próprios também.

     Não temos a intenção de responder a este problema em algumas páginas e muito menos à formas comno cada um o levanta. Preopomo-nos apenas abrir uma porta a este mistério. São estes os pontos que poremos em relevo:

1. Jesus pretende ser Deus? Renuncia a ser homem?
2. Jesus e ideia que os filósofos têm de Deus.
3. O paradoxo de Jesus-homem e de Jesus-Deus.
4. Porquê este Deus e não outro?
5. Que imagem de Deus nos dá Jesus Cristo?

I. Jesus Cristo afirmou ser Deus?

    Quando se toma a sério a existência histórica de Jesus Cristo, podemos perguntar-nos se verdadeiramente Ele afirmou ser Deus, de tal modo o vemos como um verdadeiro homem.

    Um certo número de pensadores actuais insiste em que Jesus não teria dito que era Deus: teriam sido os Seus discípulos que embelezaram a história depois da morte dele.

    É exacto que, nos primeiros tempos da Sua vida pública, Jesus evitava cuidadosamente ser chanado "Messias", um termo misterioso mas muito importante para os Judeus da época. Escondia e tentava esconder que era o "Santo de Israel", o "Messias", o "Filho de Deus".

    Isto explica-se muito bem. Com efeito, os Judeus no século I esperavam um Messias que não se sabia muito bem o que iria ser. "Cristo" é uma palavra grega que significa "Messias", aquele que recebeu uma unção com o óleo bento por Deus, tal como o rei David. Mas esta "esperança de Israel" era muito diferente de pessoa para pessoa: para os nacionalistas e para os religiosos (entre uns e outros não havia grande diferença), o Messias devia ser um libertador político para devolver a independência de Israel em relação aos Romanos. Para alguns outros, como a Virgem Maria, Isabel, Simeão, Ana, etc., era muito mais profundo. Era a espera da Promessa de Deus, promessa de salvação, promessa de ressurreição (também os Fariseus, de quem se fala muito nos Evangelhos e nos Actos dos Apóstolos, acreditavam na ressurreição dos mortos).

    Mas esta promessa de Deus, ninguém conhecia ainda o que seria: Jesus vai revelá-la pouco a pouco, evitando reforçar as falsas imagens do Messias.

O "Filho do Homem"

    Várias vezes ao longo do Evangelho, Jesus fala do "Filho do Homem", aplicando progressivamente esta expressão a si próprio. Que quer ela dizer?

    Há num livro do Antigo Testemento, o livro do profeta Daniel, a expressão e a imagem do "Filho do Homem" (Daniel, capítulo 7, versículos 9 a 14 e 15 a 28). Esta expressão designa ao mesmo tempo um homem filho de homem, de condição humana, e um homem que ultrapassa misteriosamente a condição humana: "O seu império é um império eterno que não acabará" e "Eis que, sobre as núvens do céu, vem como que um filho de homem..."

    Já o profeta Ezequiel (capítulo 1, versículo 26) tinha falado de um ser sentado no famoso "carro de Ezequiel"; esse ser tem "uma aparência humana" e, ao mesmo tempo, é "a glória de Deus".

    Portanto, por muito misteriosa que essa figura fosse no tempo de Jesus, é esse o título que Ele vai reivindicar diante dos seus juízes no grande tribunal judeu, o Sinédrio: "Doravante, o Filho do Homem sentar-se-á à direita do Poder de Deus" (Lucas, cap. 22, vers. 69).

    E então, continua a narrativa, "todos disseram: 'Tu és portanto o Filho de Deus?' E Ele declarou-lhes 'Vós o dizei, Eu sou'" (Lucas, cap. 22, vers. 70).

    Resumamos: Jesus reivindicou realmente, quando chegou a sua hora, o facto de ser Deus. Tal como reivindicou o facto de ser verdadeiramente um homem: "Em mim, diz Ele na substância, Deus fez-se homem para vir ao vosso encontro 9". Faz solenemente esta declaração no momento preciso em que sabe que vai ser condenado à morte.

II. O Deus de jesus Cristo é o Deus dos filósofos?

    Alguns poderiam pensar que, quando jesus reivindica ser Deus, o faz apenas nos termos do pensamento teológico do povo judeu. Que relações teria esse Deus com o Deus dos filósofos, aquele Deus sobre quem as pessoas de todos os tempos parecem ter chegado a acordo acerca das suas qualidades mínimias (se é que de facto Ele existe)?

    Jesus Cristo parece que tinha mesmo previsto esta questão. De facto, reivindicou para si o facto de ser o Deus de israel e, ao mesmo tempo, o Deus universal segundo a razão. Há no Evangelho uma passagem muito significativa a este respeito (S. João, capítulo 8, vers. 56 a 58).

Os Judeus discutiam com Ele. Vejamos a passagem essencial:

"Abraão, vosso pai, exultou só de pensar que vceria chegar o meu dia. Viu-o e ficou cheio de alegria":
Os Judeus disseram-lhe então: "Ainda não tens cinquenta anos e já viste Abraão!?"
Jesus disse-lhes:
"Em verdade, em verdade, vos digo: Atnes que Abraão existisse, Eu sou!"

    Ouvindo isto, os Judeus pegaram em pedras para lapidarem Jesus, porque Ele reclamava o estatuto divino, Ele declarava-se Deus. Como não O aceitavam como Deus, a única saída era considerá-lO blasfemo, quer dizer, que insultava gravemente Deus.

    No entanto, o que nos interessa não é a recusa dos Judeus nem as suas consequências, mas a declaração de jesus.

    Esta declaração-afirmação de divindade é deveras espantosa: refere-se aos textos antigos específicos de Israel e, ao mesmo tempo, remete-nos para o Deus que qualquer homem tem o direito de exigir. Referindo-se ao contexto bíblico específico de Israel, recorda que Deus, no Antigo Testamento, se apresentou a Moisés com o nome "Eu sou Aquele que é" (Êxodo, capítulo 3, vers. 14) e como Deus de Abraão, Isaac e Jacob (Êxodo, cap. 3, vers, 6).

    Afirmando "Eu sou" - para além de qualquer referência temporal -, Jesus reivindica a divindade nos termos das exigências dos filósofos. isto é, como eternidade ou como eterno presente. Deus não tem princípio nem fim. É o Absoluto. Aquele cuja existência não depende de ninguém. É, ao mesmo tempo, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, o Deus do Israelitas e o Deus da criação.

III. Como é que Jesus assume o paradoxo: ser homem e Deus?

    Para ajudar a compreender este assunto, escolhamos uma imagem no Antigo Testamento, precisamente no momento em que Deus se revelou a Moisés como "Aquele que é": a história da sarça ardente.

    É uma manifestação muito bela de Deus que anuncia, cerca de 1500 anos antes, o mistério de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

    Moisés, que guardava os rebanhos do seu sogro Jetro, viu nos campos do Sinai um arbusto que ardia sem se consumir (Êxodo, cap.3) Aproximou-se para ver aquela maravilha e, do arbusto, ouviu uma voz que lhe falava:

    "Eu sou o Deus dos teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob".

    Pouco depois, Moisés perguntou-lhe o nome e é então que Ele responde: "Eu sou Aquele que é", Era a esta mesma expressão que Jesus fazia se referia na discussão com os Judeus que citámos acima: "Eu sou". Mas esta imagem fantástica do arbusto que arde sem se consumir é também a imagem do Deus criador - o Deus todo-poderoso que vem na criação, naquele arbusto e que, em vez de tudo queimar, de tudo fazer explodir por ser tão poderoso, é capaz de mostrar a Sua presença simbolizada pelo fogo, sem que nenhuma folha nem haste sejam destruídas.

    Portanto, e da mesma maneira, quando Deus se faz homem em Jesus Cristo, a Sua omnipotência naõ faz explodir a natureza humana. É isso que a Igreja reconhece quando diz que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai.
E por nós, ho,ems e para nossa salvação, desceu do Céu. E incarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria. E se fez homem"

Credo de Niceia-Constatinopla, resumo da fé cristã.

IV. Porquê o Deus de Jesus Cristo e não outro?

    Por Jesus Cristo, conhecemos o Deus-Trindade, Aquele que é em três pessoas, o Pai, o Filho (Jesus Cristo) e o Espírito Santo. Mas somos mesmo obrigados a acreditar em Jesus Cristo, ou podemos encontrar outros Deuses?

    Não pode haver senão um único Deus: então é o de Jesus Cristo (em três pessoas que têm o mesmo Amor, a mesma vontade). Não pode haver outro ao mesmo tempo, senão o primeiro não seria Deus, o Absoluto.

    Então? Sou livre de acreditar em outro Deus, que não Jesus Cristo? Se encontrarem algum que seja melhor Deus do que Jesus Cristo, fiquem com Ele! Quanto a achar outra religião, vejam o que dizia Talleyrand 10. Um dos célebres "homens das luzes" que marcaram a Revolução Francesa propunha que se arranjasse uma nova religião para substituir o cristianismo e queria fazer votar esta proposta pelos deputados. Ao fim de cinco minutos, Talleyrand interrompeu-o para dizer: "Acreditaremos em si, meu caro senhor, quando tiver morrido por essa sua religião e tiver ressuscitado três dias depois!"

V. Que imagem de Deus nos dá Jesus Cristo?

    Responder a isto é continuar a resposta anterior. Muitas pessoas têm medo de Deus. Um dia, na Sibéria, pouco tempo depois do fim do comunismo (1992), alguns estudantes fizeram-nos esta pergunta. "Agora que nos libertámos dos comunistas, vamos tornar-nos escravos de Deus?"

Quando se faz esta pergunta a Jesus Cristo, Ele responde, não por psalavras mas por actos, mais ou menos assim:

    "O Deus que nós somos, o meu Pai e Eu, mostro-o todos os anos pelo Natal, quando venho nascer no meio de vós. Venho ao mundo, ao vosso encontro, como um menino e não como um ditador para vos dominar.
    Compreendem então que o que procuro, não é pressionar a vossa liberdade através da força ou do medo, mas sim obter o vosso amor? E ninguém ama se o não fizer em liberdade".

Entre muitas outras imagens de Deus que Jesus Cristo nos dá, há também a do pai que perdoa:

    Na cruz, quando está a morrer, condenado à morte por nós homens, Jesus disse a Seu Pai: "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Depois, também na cruz, quando o malfeitor, o "bom ladrão", lhe disse: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o Teu Reino", Jesus respondeu:

"Em verdade, em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso".

                               Evangelho segundo S. Lucas, cap. 23, vers. 39-43.

Um Deus que perdoa e dá o Céu! Haverá algum Deus melhor do que Ele?


 

1) É o caso de Jérôme Prieur e Gérard Mordillat, autores de uma série televisiva chamada Corpus Christi. Nela apresentaram a imagem do seu "Jesus" tal como a conceberam eles mesmos. Acham que racionalistas e cristãos são incapazes, tanto uns como outros, por causa dos seus preconceitos, de estudar correctamente a história e, por isso, de apresentar honestamente Jesus.

2) a. O título de Pôncio Pilatos era, na realidade, "prefeito". Na época de Tácito, os representantes romanos deste tipo e espoecialmente o da Judeia, tornaram-se "procuradores". Quanto aos Evangelhos, falam "daquele que governa", sem precisar o título. A arqueologia (ver adiante) confirmará o título de praefectus para Pilatos.
b. Tácito relata mais tarde (Histórias, III, 65-75) a espantosa história da transformação moral de Flávio Clemente, cônsul. Dião Cássio, outro historiador romana, conta que este Flávio foi executado às ordens do imperador Domiciano por crime de "ateísmo", isto é, porque era cristão e recusava-se a adorar os deuses oficiais. Ora Flávio Clemente era primo irmão do impºerador e tinha dois filhos que Domiciano queria fazer seus sucessores (Dião Cássio, I - LXVII, cap. XIV. Ver também Suetónio, Domiciano.

3) Historiador do 1º século. Judeu romanizado, escreveu em grego a Guerra dos Judeus e as Antiguidades Judaicas.

4) Por exemplo, num programa de televisão Arte, emitido em França na Semana Santa de 1997 e nada 1998. Lembremo-nos que este programa não se refere minimamente à arqueologia, considerando a existência de "um só território, o da literatura".

5) "Ora existe em Jerusalém, perto da porta Probática (a "porta das ovelhas"), uma piscina que se chama em hebreu Bethesda e que tem cinco pórticos..." (Evangelho segundo S. João, capºítulo 5, versículo 2).

6) Ainda que Pilatos seja várias vezes citado por Flávio Josefo.

7) Trata-se do papiro Rylans nº 457, encontrado no Egipto pelo sábio britânico Grenfell em 1920 e decifrado em 1935 por C.H.Roberts.. Considera-se hoje que as narrativas orais dos Evangelhos só teriam passado à escrita no 3º quartel do século I.

8) Véspera da Páscoa, 14 do mês de Nisan. A Páscoa do ano 30 foi a 15 de Nisan, 8 de Abril. Pôncio Pilatos foi prefeito da Judeia de 26 a 36.

9) É certo que, ao longo da sua vida pública, Jesus vai empregar diferentes expressões e parábolas para dizer esee facto inaudito: o esposo e a esposa, o reino de Deus, o filho do dono da vinha, a pérola perciosa. Mas a expressão "Filho de Homem" é suficiente para tratar este assunto.

10) Francês ilustre, atravessou todo o período que envolveu a Revolução Francesa e o período que se lhe seguiu: foi deputado aos Estados Gerais, diplomata, amigo de Napoleão, ministro e negociador no Tratado de Viena que devolveu a paz à Europa (1815).